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A Covardia de Cada um de Nós

Sempre relacionamos a covardia com atos extremos (violência contra algo indefeso) ou algum tipo de falha estrutural no caráter (mentiras, medo do risco, etc). Porém, existe um tipo de covardia que nos transforma em ratos quando estamos envolvidos em um relacionamento.Parece que um medo ancestral nos paralisa e mesmo as pessoas que dizem mergulhar fundo em seus relacionamentos, parecem encarar superficialmente a questão. É a dificuldade em assumir o nosso amor com todas as implicações que advém de nossas escolhas. Invariavelmente, estas escolhas provocam algum tipo de perda, financeira, afetiva, social, profissional, e assumir que somos os únicos responsáveis por nossas escolhas, é uma tarefa que exige um caráter único.É preciso de desprender de todas as convenções materiais e sociais. Os covardes não encontram espaço neste campo. A realidade é tão diferente, o que vemos no cotidiano é justamente o contrário, vidas inteiras envenenadas por um ato covarde, por quem não assumiu suas escolhas ou não suportou as perdas.Pessoas que preferem trair a terminar um relacionamento, o comodismo que faz continuar em uma relação fracassada, relacionamentos que parecem mais uma sociedade "projeto de vida casa, carro, viagem" do que uma convivência feliz. Falamos em alma gêmea, nossa metade perdida, mas acredito que encontramos com essas pessoas especiais várias vezes ao longo de nossas vidas, mas, na maioria das vezes, a covardia de um dos dois (ou de ambos) pode simplesmente ter traído a possibilidade de ser feliz. Tenho um amigo que diz que cada pessoa importante para nós, passará em nossas vidas três vezes, ou seja, teremos três oportunidades de mudar a história deste relacionamento. É provável que isso seja só uma bobagem, mas no meu caso, já aconteceu com duas pessoas diferentes (e o final foi o mesmo...). Assim, seguimos responsáveis por nossas escolhas, mesmo quando culpamos o destino por nossa infelicidade porque é difícil olhar para trás e ver o que perdemos no caminho...

A Mulher Invisível

Nada pode ser pior no relacionamento do que ficar totalmente invisível para o outro. Quando um está na sala o outro corre para a cozinha, quando um está vendo televisão, o outro está no computador. Os momentos a dois, normalmente nas refeições, parecem cronometrados por uma mão invisível, e é impossível não notar o alívio nos olhos do outro quando o tempo em conjunto expira. Como se chega a este ponto? Não tenho respostas objetivas, nem tenho como saber se é definitivo ou temporário... Sei apenas que acontece e não é fácil lidar com os sentimentos nesta fase. Fiz uma promessa que nunca mais continuaria com um relacionamento falido, que o amor deveria estar acima de todas as coisas, incondicional, único e honesto. Quando me deparo com o primeiro indício da falta de amor, me transformo em um ratinho, querendo correr para dentro do buraco, me esconder, sumir no mundo para não ter que encarar os fatos. Mesmo sabendo que não podemos ir muito longe remando em lados contrários...

Quem Tem Razão

Uma grande amiga está passando por uma fase difícil no relacionamento que já está na fase de casas separadas. Uma das condições que ela tem colocado para reatarem o relacionamento, é a concordância dele em fazer uma terapia, coisa que ele sempre resiste. Os dois foram ao terapeuta juntos e ao final de algumas sessões o terapeuta suspendeu o atendimento, afirmando que o marido precisava de uma terapia individual e que, por questões éticas, não poderia aceitá-lo já que ele resistia ao acompanhamento. Neste aspecto, concordamos todos, eu, minha amiga e o terapeuta, que o marido realmente precisa de um tratamento psicoterápico urgente. O único problema nesta história toda, é que minha amiga se sente vitoriosa depois deste parecer, como se o casal estivesse dentro de um ringue e o primeiro round fosse vitória para ela. Infelizmente, depois de tantos anos na estrada da vida, esta aparente vitória pode ser a causa do fracasso inevitável da relação dos dois. Se precisamos dentro de um relacionamento, provar ao outro que estamos certos seja em relação ao que for, está aberto o caminho para o fim do amor. Exatamente por ser amor, o certo e o errado não podem fazer diferença, o mais importante é estar feliz com quem amamos. Muitas vezes, as minhas incontáveis chateações do cotidiano da convivência, são superadas quando desisto de procurar culpados para isto ou aquilo. É preciso apenas viver, com a consciência clara que seremos magoados ou magoaremos alguém inevitavelmente. A única possibilidade real de lidar com isso, é sendo generoso para reconhecer não apenas as fraquezas dos outros, mas principalmente, as nossas próprias impossibilidades.

Dois de Cada

Remoendo minhas lembranças um dia destes, me dei conta que na história dos meus relacionamentos sempre aparecia dois de cada. Eu passava meses a fio sozinha e encostada, quando eu iniciava um namoro rapidamente surgia outro possível namorado. O curioso é que eles sempre tinham as mesmas características, se eu estava namorando um engravatado, o outro que surgia tinha o mesmo estilo, se era um hipongo encardido, idem. Ou seja, não tinha nem o conflito de estilos, eram sempre na mesma linha. Pensando em destino ou outras coisas metafísicas, concluo que eles estavam lá para me mostrar que existiam outras possibilidades, outros caminhos.Indo mais além, que eu sempre teria a possibilidade de escolha. Uma lembrança ao tal do livre-arbítrio que mesmo sendo o elementos mais importante de nossa formação cristã, ocidental, xintoísta e muçulmana, ainda deixamos de lado, tal e qual os dez mandamentos. Evoluindo em minhas meditações, vejo hoje que podia ter errado bem menos se fosse menos orgulhosa e teimosa e tivesse tido a humildade de querer enxergar o que estava embaixo das minhas ventas. De fato, a idéia de que o certo e o errado são colocados na nossa frente o tempo todo e que nos cabe escolher um deles, é de arrepiar...

Seu Passado a Espera

O filme Peggy Sue, seu passado a espera, sempre me atormentou pela pergunta central do filme: se você tivesse a oportunidade, mudaria seu passado? O interessante é que não podemos mudar apenas as coisas ruins e ficar com as boas, ao mudar uma única escolha, mudamos tudo. Quando terminamos um relacionamento e partimos para outra, queremos deixar para trás tudo, as atitudes, o sofrimento, as lembranças... O problema é que nunca conseguimos fugir de nós mesmos e eventualmente temos uma sensação de dejá vu. Mesmo mudando de marido, de cidade, de formato de casamento, quando menos esperamos, pimba! Lá está a situação idêntica ao ocorrido no passado.Meu primeiro pensamento é que estou amaldiçoada para sempre. Afinal, já sabemos o que não queremos (embora o que nós realmente desejamos nesta vida ainda seja meio confuso e nebuloso). E aí você se dá conta que mesmo achando que tudo poderia ficar esquecido no passado, seu presente é conseqüência dele, já que impossível reescrever nossa história. Ou seja, tudo que nós somos hoje é fruto de nossas experiências passadas, as boas e as más. Não mudamos nossa essência, mudamos apenas o poder de fazer escolhas e decidir como enfrentar as intempéries. Pena que ainda não vislumbramos o poder que isso representa.

Opressores e Oprimidos

Como a maior parte das mortais, tive a oportunidade de conviver com um ex-marido maluco, que infernizou minha vida durante um bom tempo. Mesmo anos depois, com nós dois vivendo em novos casamentos, morando em cidades distantes, ele ainda insistia em ligar e despejar desaforos.Lógico que a porta de entrada sempre era as crianças e coisas "importantes" que ele tinha para falar. No final, vinha a chuva de queixas e acusações. Eu perdi a conta de quantas vezes eu ouvi que era mentirosa, ardilosa, falsa,interesseira, etc. Quando ainda estávamos casados fiz uma cirurgia que, segundo a médica, me impediria de ter mais filhos. Como eu já tinha duas filhas e não pensava em engravidar novamente, a notícia teve pouca importância. Anos depois, já no novo casamento, fui surpreendida com a novidade: estava grávida de quase vinte semanas! Pensei que estivesse com algum problema de saúde, nunca imaginei ser uma gravidez. Adivinhem só, o bronco ligou mais uma vez para dizer o quanto eu era mentirosa, que até nisso eu tinha mentido para ele. Naquele momento eu tomei uma decisão: ou eu pegava um avião e ia até ele para dar três tiros e acabar com esse inferno, ou eu o perdoava. Logicamente, eu escolhi a segunda opção, afinal, eu queria ver minha filha crescer. O interessante é que ao perdoá-lo, ele deixou de ter poder sobre mim e nada do que ele dissesse poderia me afetar. Ao perceber que os ataques de fúria dele não produziam mais nenhum efeito sobre mim, ele ficou desconcertado, depois decepcionado e, por fim, parou com os pitis. Hoje me trata cordialmente, e isso me serviu de grande lição na minha vida. Para todo opressor existe alguém que se deixa oprimir, então o primeiro passo para nos livrarmos de alguém que nos oprime, é acabar com o poder que esta pessoa exerce sobre nós.

A Jornada Interior de Sen/Chihiro

Nestas férias aproveitei para rever e pesquisar um pouco sobre este filme tão delicado. Quem pensa que é um filme para crianças está enganado, apesar da protagonista ter apenas dez anos. Só o fato de ser um desenho feito quase todo a mão, já é maravilhoso, mas é impossível não refletir sobre a mudança interna em Chihiro. O mais interessante é que fica claro que ninguém pode viver nossas experiências e amadurecer por nós. É um processo solitário, que exige força interior para transformar nossa realidade.Segundo o diretor do flme, Hayao Miyazaki,"Este filme é uma história de aventura, embora os personagens nem oscilem em torno de armas, nem usem poderes sobrenaturais em batalha. É uma história de aventura, mas o seu tema não é um confronto entre o bem e o mal. É uma história de uma menina que foi jogada em um mundo onde tanto o bem e o mal existem. Ela é treinada, aprende sobre amizade e devoção, e sobrevive usando sua sabedoria. Ela encontra o seu caminho para sair, e volta para sua antiga vida cotidiana do momento. No entanto, não é porque o mal foi destruído, tal como o mundo não desaparece, (o mal não desaparece). É porque ela ganhou o poder de viver". As cenas do trem sobre as águas são realmente lindas...